Conflitos sinalizam dificuldades

Jean-Philip Struck Deutsche Welle Brasília - "De tédio, nenhum de vocês morreu este ano", disse o presidente da Câmara dos Deputa...

Jean-Philip Struck
Deutsche Welle

Brasília - "De tédio, nenhum de vocês morreu este ano", disse o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a um grupo de jornalistas ao avaliar a política brasileira em 2015. Especialistas ouvidos pela DW disseram que a crise política e econômica que engoliu o Brasil dificulta qualquer previsão para 2016, mesmo para o primeiro semestre. O único consenso é que a turbulência de 2015 vai continuar no próximo ano. E o fim dela continua imprevisível.
Na política, a partir de fevereiro – quando acaba o recesso parlamentar e do Judiciário –, o país deve mais uma vez acompanhar as discussões sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a continuidade da novela sobre o futuro de Cunha no comando da Câmara, mais discussões sobre o ajuste fiscal e a divisão interna no PMDB.

"A expectativa de que esses conflitos não resolvidos vão continuar sinaliza que 2016 vai ser um ano de muitas incertezas", afirma o cientista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências. E esses acontecimentos se darão num ano de eleições municipais e, segundo economistas, de provável continuidade da crise econômica, ao menos em alguns setores.

"As crises na política e na economia vão continuar indissociáveis no ano que vem. O quadro na economia continua pessimista quando se observa o que governo será capaz de fazer. Sem reformas, os problemas do desemprego e da inflação tendem a continuar graves", afirma o economista Raul Velloso.

Há números para embasar essas previsões. O Banco Central estimou em seu último boletim, que o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma retração de 3,6% em 2015 – o maior recuo desde 1990. Em 2016, deve ocorrer uma nova queda, de 1,9%, segundo os cálculos da autoridade monetária, que afirmou que a estimativa "incorpora cenário de incertezas associadas a eventos não econômicos". Já a inflação anual deve chegar a 9,2% no final do primeiro trimestre, mas recuar para 6,2% em dezembro – um pouco abaixo do teto.

Outros números são mais otimistas. O Ministério do Desenvolvimento prevê um superávit de 35 bilhões de dólares na balança comercial – puxado pela maior exportação de grãos e pela desvalorização cambial. O resultado deve ser muito superior ao deste ano, que pode chegar a 17 bilhões de dólares.

Dilma e Cunha vão começar o ano da mesma forma que terminaram: lutando para preservar seus mandatos. A expectativa no meio político é que o processo de impeachment comece efetivamente a andar na Câmara a partir de fevereiro. A presidente, no entanto, está numa situação mais confortável graças às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), que delineou um "mapa" para o processo em que o Senado – onde Dilma ainda conta com mais aliados – ganhou mais poder para barrar o afastamento. E também graças ao parecer do relator da Comissão Mista de Orçamento do Congresso, Acir Gurgacz, que recomendou a aprovação das contas de 2014 da presidente.

"Só que essa situação mais confortável vai ser confrontada com um cenário de crise econômica, em que acordos políticos ganham um caráter provisório, não é possível precisar se eles vão se manter", afirma o cientista político Cortez, avaliando que a presidente segue fragilizada, apesar das vitórias recentes.

Dilma também enfrenta uma ameaça no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde correm ações que pedem a anulação da sua chapa nas últimas eleições por abuso de poder econômico. Alguns setores da oposição, especialmente do PSDB, começam a apostar mais nessa frente, avaliando que o processo de impeachment na Câmara foi dificultado pelas decisões do STF e que seu respaldo está contaminado pelas intervenções de Cunha.

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