Justiça manda desocupar 72 imóveis no bairro de Nazaré

O cruzamento entre a rua Cirilo Moreira e a avenida Lima e Silva, no bairro Nazaré, zona Oeste da capital potiguar, é endereço de uma ação ...

O cruzamento entre a rua Cirilo Moreira e a avenida Lima e Silva, no bairro Nazaré, zona Oeste da capital potiguar, é endereço de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual contra o Município de Natal. Iniciado em setembro de 2006, o processo questiona a ocupação irregular de área pública em torno do campo de futebol da comunidade, local cedido pelo poder público para benfeitorias a serem realizadas pelo Centro Esportivo que acabou servindo para construção irregular de imóveis comerciais e residenciais.
A comercialização de terrenos na área do centro esportivo teve início no ano de 2000. Há seis anos, construções são questionadasA comercialização de terrenos na área do centro esportivo teve início no ano de 2000. Há seis anos, construções são questionadas

Como forma de devolver autonomia do Município sobre a área, fatiada em 36 lotes de 30 metros quadrados, em média, cada um, o juiz Cícero Martins de Macedo Filho, da 4ª Vara da Fazenda Pública, determinou que a Prefeitura tem até o próximo dia 10 de outubro para "declarar a nulidade dos contratos de concessão de uso"; "desocupar a área"; e "assumir a administração dos imóveis". Caso não cumpra a decisão, será aplicada multa diária de R$ 10 mil.

Decisões semelhantes já haviam sido proferidas em setembro e novembro de 2010, e em junho deste ano, mas as providências vinha sendo proteladas através de recursos encaminhados pelos advogados de defesa dos moradores e comerciantes instalados no lugar desde 2005. "Os lotes começaram a ser vendidos em 2000, e do jeito que o (ótimo) negócio foi apresentado para nós, compraria tudo de novo", disse Adauto Sabino Bezerra, atual presidente do Centro Esportivo do Bairro de Nazaré e também citado como réu no processo por ter adquirido de maneira irregular um imóvel público. Adauto explicou que foi "vítima da má fé" do ex-presidente do Centro Esportivo, Severino Machado, "que não tinha o direito de vender os imóveis", lamentou. Segundo Adauto, Severino "recebeu todo o dinheiro e não fez nenhuma benfeitoria no campo, nem prestou contas".

DEFESA

Severino Machado permaneceu à frente do Centro Esportivo por cerca de 18 anos, foi processado, julgado e condenado a um ano de serviços comunitários pela venda ilegal dos lotes. "Lembro que na época, há uns três mais ou menos, recorri à Justiça e consegui diminuir a pena dele", disse o advogado Paulo Lopo Saraiva, que nos autos responde pela defesa dos moradores e comerciantes de Nazaré. Saraiva afirmou que não tinha conhecimento da nova decisão judicial e que, por isso, não teria "nada a dizer sobre o processo". "Não estou acompanhando os desdobramentos dessa ação, e como ainda não fui acionado pelos moradores fica difícil ter qualquer posicionamento".

Severino Machado foi procurado pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, mas, questionado sobre a destinação dos recursos obtidos com a venda dos imóveis, limitou-se a dizer que seu caso "já foi resolvido" e que o assunto deveria "ser tratado com o advogado" Paulo Lopo Saraiva.

Sobre recorrer da decisão judicial de despejo, Adauto Bezerra, proprietário de dois lotes, disse estar "cansado": "Essa é a terceira vez que a Justiça tenta tirar a gente daqui. Já rodei bastante tentando resolver esse problema, mas se o pessoal quiser dou apoio... eu mesmo não vou procurar o advogado", adiantou. Ele lembrou que toda vez que o assunto "da Justiça" volta à pauta, "os vizinhos ficam todos tensos, e daqui a pouco vão começar a me procurar".

Bezerra mora com a esposa e dois filhos, em um apartamento construído sobre os dois pontos comerciais que possui no térreo - uma loja de peças de moto e uma borracharia. "No começo (em 2005) nem queria vir morar aqui, pois sabia que era concessão, mas acabei cedendo onde morava anteriormente para minha mãe e minha sogra. Hoje não sei para onde ir com minha família; e a situação do restante do pessoal deve ser a mesma, pois a maioria morava de aluguel".

Preço dos imóveis chega a R$ 65 mil

Alguns pontos comerciais e residências já foram repassados, outros estão alugados, mas o valor praticado é o de mercado. Apesar de cada lote de 30m² localizado na Av. Lima e Silva ter sido vendido por R$ 2 mil, inclusive com pagamento facilitado, a revenda obedeceu a lei da oferta e da procura.

A comerciante Sidney Pereira da Silva, 54, conhecida por Dona Nina, fabrica redes de proteção para apartamentos e disse que comprou o imóvel em 2005 "já construído" por R$ 65 mil. Ela afirmou que "sabia" que o Centro Esportivo havia vendido toda a área e "não viu problema" em adquirir o ponto comercial conjugado com apartamento. "Sou a segunda proprietária daqui", disse mostrando o carnê do IPTU, "e acredito que estamos ajudando o bairro ao transformar esse espaço, antes mal frequentado, em uma área de comércio. Trocamos os bandidos por trabalhadores", aposta.

O gerente comercial Luiz Correia Neto, 36, que trabalha em uma empresa de refrigeração automotiva algumas lojas adiante de Dona Nina, também compartilha da mesma opinião: "Se não tivesse essas construções, aqui seria ponto de malandragem", acredita. Neto contou que chegou a receber intimação para desocupar o imóvel em 48 horas. "Faz mais ou menos um mês isso. Houve uma reunião com vereadores e pelo que fiquei sabendo, pois a reunião foi com os proprietários dos imóveis, o pedido de despejo foi adiado", informou. A loja onde Luiz trabalha ocupa dois lotes e é alugada por R$ 800 mensais.

Secretário diz que vai cumprir decisão

O secretário Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, João Bosco Afonso, afirmou à TN que "o que for determinado pela Justiça será cumprido". Sobre o fato dos imóveis pagarem IPTU desde 2011, Afonso explicou que "pagar imposto não significa estar regularizado". O titular da Semurb disse que a Prefeitura já tentou vários acordos com os moradores, intimados anteriormente a desocupar "espontaneamente" os imóveis. "O que não faremos é desobedecer a decisão judicial", garantiu.

Vale registrar que o projeto original, apresentado no final dos anos 1990 pela diretoria do Centro Esportivo que na época tinha à frente Severino Machado, previa a instalação de arquibancadas, vestiário, banco de reservas, construção de quadra poliesportiva, muro e iluminação, entre outras melhorias. Ainda de acordo com a proposta, os imóveis construídos no entorno deveriam ser apenas locados, e os pontos comerciais serviriam para atividades relacionadas com perfil esportivo. Toda a renda obtida com os alugueis deveriam ter sido revertidos para benfeitorias na própria área.

"O projeto foi chancelado pela ex-prefeita Wilma de Faria e aprovado por técnicos do Município", disse Adauto Sabino Bezerra, presidente do Centro Esportivo desde 2010, após a saída de Machado do cargo. "Se ele (Severino) tivesse investido no campo como estava previsto, não estaríamos nessa situação". Bezerra ressaltou que não houve nenhuma melhoria, "e quem construiu o muro foram as pessoas que compraram os imóveis". A iluminação, segundo ele, "foi conseguida com um político" e a quadra está sendo feita pela Prefeitura. "Se eu pudesse administrar os recursos que esse lugar poderia render, teríamos uma praça esportiva bem equipada", aposta.

COMUNIDADE PROVOCOU A AÇÃO DO MP

A ação civil pública, registrada sob o nº 0022910-79.2006.8.20.0001, foi ajuizada em 2006 pelo promotor Fernando Vasconcelos, hoje lotado no gabinete do Ministério Público do RN como coordenador jurídico administrativo. "Aquele terreno pertence ao Município e foi cedido para benfeitorias públicas, e o processo foi iniciado a partir de denúncias da própria comunidade, que procurou o MP para dizer que a área estava sendo comercializada por particulares", recordou o promotor. Há cerca de seis anos Vasconcelos chegou a solicitar à Prefeitura que retomasse a área "pois a cessão havia perdido a finalidade original". Para ele, o caso revela "a falta de atenção do Município com os próprios bens".
Yuno Silva - Repórter

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